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O Blog da Santa Casa da Misericórdia de Torres Vedras

As últimas notícias sobre o Lar de Nossa Senhora da Misericórdia, Clínica Domus Misericordiae, ERPI, Creche, Jardim de Infância, CATL, Centro de Dia e Serviço de Apoio Domiciliário

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GNR resgata idoso da morte

Quirino Silva ainda hoje não sabe com que forças se levantou para pedir ajuda ao fim de 17 dias sem comer nem beber. Sozinho neste mundo, o idoso de 70 anos vivia num casebre em ruínas, em Runa, isolado, rodeado de mato, e sem meios para subsistir, a passar fome, sede e frio.

 

Aos 68 anos ficou sem o trabalho como caseiro numa quinta, onde esteve durante mais de três décadas. Depois disso deixou-se mergulhar numa profunda tristeza, com os documentos caducados há anos, até já não lhe restar nada do pouco que tinha amealhado ao longo da vida.

 

Ao fim de dois anos a viver em condições sub-humanas, sem água, luz ou saneamento básico, rodeado apenas de mato e lixo, Quirino desistiu. Entregou-se de corpo e alma e deixou-se ali ficar no casebre, parado no tempo, parado em si próprio, à espera não sabe bem do quê.

 

Mas ao 17º dia sem comer nem beber, Quirino Silva levantou-se, agarrou-se a uma ripa de madeira e avançou em direção à povoação, arrastando o corpo magro, sujo e desnutrido pela serra acima, valendo-se de uma última réstia de forças.

 

Foi um esforço demasiado grande para ele e quando lá chegou desmaiou de fome e cansaço. Ainda hoje não sabe como foi que conseguiu, nem o que o fez regressar à tona. A partir daí passou a receber a ajuda de um vizinho, que lhe dava comida.

 

Ainda assim a vergonha continuava a consumi-lo. Não se permitia pedir ajuda, nem sequer admitir que necessitava dela. Sempre que alguém na localidade lhe oferecia comida respondia, ainda que cheio de fome, que “não obrigado, já comi”. Era a voz da vergonha que sempre deixou falar por ele, mesmo quando já era só pele e osso.

 

A sua situação chocou os elementos da equipa de Programas Especiais da GNR, que o foram encontrar a viver no meio do mato. “Já vimos muitos casos, mas nenhum nestas condições”, dizem os guardas que o resgataram de uma vida de miséria e de uma morte certa no meio do nada.

 

A GNR sinalizou de imediato o caso e, em colaboração com o serviço social da Casa do Povo de Runa, conseguiram uma vaga para Quirino Santos no Lar da Santa Casa da Misericórdia de Torres Vedras, onde vive há cerca de um mês.

 

Os olhos enchem-se de lágrimas de cada vez que os guardas o visitam e já o foram ver duas vezes. “São meus amigos. Tiraram-me de lá e isso nunca lhes vou conseguir pagar. Choro de alegria”.

 

Quirino chora e os guardas sorriem, porque não há maior recompensa do que saber que se salvou uma vida.

 

Fonte: Jornal Badaladas Edição ON-Line